
Quem é o Rio de Janeiro? Por Webber Lopes
Parabéns Cidade Maravilhosa pelos 443 anos, completados em 1º de março; e por de janeiro a janeiro fascinar a todos que a ti visitam, e encantados ficam pelas tuas belezas, principalmente aquelas que se debruçam sobre a Baía de Guanabara. Nenhuma cidade no mundo combina tanto com o mês que carregas no nome, e que no hemisfério Sul, marca o auge do verão. Mas a pergunta que ninguém faz é: sendo a cidade fundada em 1º de março, por que ela se chama Janeiro, Rio de Janeiro; ou melhor, pronunciando o nome por completo São Sebastião do Rio de Janeiro? Para quem desconhece a história e a data de fundação da cidade, a primeira associação que ocorre é a de que o Janeiro deve ter a ver com o dia de São Sebastião, que é comemorado em 20 de janeiro, levando a conclusão de que sua fundação teria ocorrido no vigésimo dia deste mês. Daí o nome São Sebastião e o complemento — até meio redundante — Janeiro. Mas, fica faltando o Rio! Da onde viria então o Rio? O fato é que o nome do município não tem nada a ver com o dia do santo, muito menos com a data oficial de sua fundação. A explicação para o nome da cidade começa, 63 anos antes de sua fundação, quando o lendário navegador Américo Vespúcio adentra as águas da Baía de Guanabara, durante a primeira expedição exploratória do litoral brasileiro. A história deu-se da seguinte forma, na visão eurocêntrica. Após a tomada de posse, em 22 de abril de 1500, das terras que a Portugal eram conferidas pelo Tratado de Tordesilhas, a esquadra de Pedro Álvares Cabral segue em sua missão bélica, para impor a presença lusitana na Índia; mas sem uma de suas embarcações que retornou, levando para Lisboa a carta do escrivão Pero Vaz de Caminha, dando a el Rey Dom Manuel, o Venturoso, o conhecimento do ocorrido. Por sinal, a única boa notícia que resultou da expedição, já que em 31 de julho do ano seguinte, Cabral regressa a Portugal com o rabo entre as pernas, derrotado pelos indianos, e com o pouco do que restou da poderosa esquadra em frangalhos. Das 13 naves, sobraram somente três. Em conseqüência do fracasso, ele não recebeu mais nenhum comando, caindo no ostracismo em que morreu. Sorte, contudo, melhor que a do escrivão que pereceu na empreitada. Após ler a missiva — na qual Caminha até pediu emprego para o genro —, o monarca determinou que uma expedição fosse realizada, para explorar as novas terras, que acabara de tomar posse. Integrada por três naus, e pilotada por Américo Vespúcio, a tarefa teve início em 1501. Há divergências sobre a data de sua partida, e qual fidalgo, comandava a expedição, que chegou a costa nordeste brasileira em agosto daquele ano. Seguiram então para o Sul, nomeando os acidentes geográficos que encontravam, com o nome do santo do dia. Em 1º de janeiro de 1502 encontram a baía que os nativos chamavam de Guanabara (Seio do Mar, em português). Devido ao primeiro dia do ano, não ser consagrado a nenhum santo; e por terem confundido a estreita entrada da baía com a foz de um rio, a batizaram de Rio de Janeiro. Na ausência de um santo, juntaram o erro geográfico ao mês do ano, certamente por falta de imaginação, em escolher de um nome melhor. A jornada de Vespúcio prosseguiu, provavelmente, até o litoral da Patagônia, o que o levou a afirmar que tratava-se de um novo continente as terras que explorava, e não da costa da Índia, como acreditara Cristóvão Colombo, devido ao território se estender muito para o Sul. Portanto, como vimos, o nome Rio de Janeiro foi dado à baía e não à cidade, que sequer existia, pelo menos sob o domínio português, pois há muito a Guanabara já era habitada pelos indígenas. Prosseguindo, nossa história dá um salto até 1º de março de 1565, quando Estácio de Sá desembarca na praia situada entre o Morro Cara de Cão e a encosta do Pão de Açúcar. Sua missão era a de expulsar os franceses que dez anos antes haviam se estabelecido na Baía de Guanabara (ou Rio de Janeiro como era chamada), e fundado a França Antártica. Nesta data e ali, ele funda a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. A cidade deve seu nome ao Sebastianimo , um movimento classificado pelos historiadores de messiânico-milenarista , encarnado na figura de Dom Sebastião I, o Desejado. O aguardado rei que salvaria Portugal dos perigos e o levaria a uma grandeza divinamente traçada. É em homenagem ao rei menino, de 11 anos, e tendo como padroeiro o santo de mesmo nome — guerreiro como São Jorge, afinal aquela era uma missão belicosa —, que a cidade é batizada de São Sebastião. O Rio de Janeiro entra como uma referência geográfica, a exemplo de tantas outras cidades brasileiras, que levam como sobrenome os rios que as margeiam, como São Jose do Rio Preto, Belém de São Francisco... Porém, como já sabemos, o Rio de Janeiro não era um rio, mas a Baía de Guanabara; e Dom Sebastião I, morre na Batalha de Alcácer-Quibir, em 4 de agosto de 1578, sem levar Portugal a glória esperada. Pelo contrário, sem herdeiros, o trono cai nas mãos de Felipe II, Rei de Espanha, tio de Sebastião I, e Portugal perde a independência. Concluindo a História, Estácio de Sá obtém a vitória; o invencível índio Cunhambebe, não estava mais vivo para defender a Guanabara. Incapazes de derrotá-lo no campo de batalha, os portugueses o assassinaram com roupas infectadas por vírus, possivelmente o da varíola, método muito utilizado pelos lusitanos para dizimar tribos inteiras de uma só vez. Além de expulsar os franceses, Estácio de Sá ainda dá início ao processo de genocídio da população indígena — levado a cabo, mais tarde, por Antônio Salema —, que habitava a região que hoje abrange o Estado do Rio de Janeiro. Mas paga com a própria vida. Em uma batalha, em 1567 — não por acaso 20 de janeiro, e na qual segundo a lenda, o próprio São Sebastião desceu do céu para lutar ao lado dos portugueses —, é ferido por uma flecha que lhe vaza um dos olhos. Vem a morrer um mês depois, alguns acreditam que por septicemia, outros devido a ponta da seta estar envenenada. Desfeito o engano geográfico, o tempo veio restituir à baía o nome que a ela foi dado por seus primeiros habitantes. E na boca do povo, a referência geográfica acabou por sobrepujar o nome do santo. A denominação Rio de Janeiro migrou da baía para a cidade e ganhou o mundo, quando ela tornou-se a capital da colônia e depois do Brasil independente. Agora, no início do terceiro milênio, tanto o município quanto a baia parecem entregues ao descaso e a incompetência governamental. O primeiro, palco de uma guerra sangrenta entre policiais corruptos e ou despreparados e a criminalidade, resultado de mais de 500 anos de exclusão social; a segunda, próxima à extrema-unção, agonizando lentamente na poluição, desde que as primeiras fezes européias foram jogadas em suas águas. |
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