
Os 500 anos esquecidos Por Webber Lopes
Findado o carnaval, temos os 200 anos da chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro, em mais uma celebração do calendário oficial de efemérides deste ano. Nada contra festividades! Muito pelo contrário! Folguedos são sempre ótimos para desanuviar as tensões do cotidiano. O problema é que nunca passamos das preliminares — opa!, perdão —, ou seja, das celebrações. Jamais nos aprofundamos na realidade dos fatos históricos que celebramos, e sempre ficamos a boiar na superfície da ignorância do nosso passado. O que é muito conveniente para os governantes, que se alternam no poder desde 1500, e se utilizam de datas importantes, para diluí-las em somente mais um evento, com o intuito de agradar turistas e distrair a população. Porém, cada vez mais, setores atentos surgem para contestar a versão oficial da história. Como nos 500 anos do descobrimento do Brasil (?), quando manifestantes seguiram para Porto Seguro, entres eles muitos indígenas, com o objetivo de deslegitimar a comemoração, organizada pelo governo Fernando Henrique Cardoso. No entanto, na contramão desta prática, vemos diversas outras datas significativas serem completamente esquecidas. Entre elas, a chegada, registrada na história, dos primeiros europeus a Baía de Guanabara, em 1º de janeiro de 1502, que este ano perfez 506 anos. Na ocasião, dos 500 anos de descoberta da Baía de Guanabara, em 2002, o governo do prefeito César Maia lançou um factóide na imprensa, comunicando que iria comemorar a data. No entanto, com o erro crasso de afirmar que eram os 500 anos da descoberta da cidade do Rio de Janeiro. Lógico, visando puxar a brasa para a sardinha dele. Gostaríamos de lembrar que, a primeira a receber o nome de Rio de Janeiro foi a Baía de Guanabara e não a capital do estado, devido aos navegantes terem confundido a sua estreita abertura para ao mar, com a foz de um rio. Daí o Rio. E o Janeiro veio em razão do mês no qual foi descoberta. Mais tarde, desfeito o engano, a denominação passaria para a cidade de São Sebastião, fundada por Estácio de Sá, em 1565. (Ler artigo Quem é o Rio de Janeiro? ). Esta revista eletrônica levantou a bandeira dos 500 anos da chegada dos europeus, mas conseguiu poucos apoios das autoridades e da sociedade. Talvez por considerarem que a Baía de Guanabara não seja de ninguém; lançando nela, por isso, esgoto e detritos, além de criar em seu litoral vazadouros de lixo. Então a quem pertence a Baía a Guanabara? Ao governo do estado? Este também, em 2002, no mandato de Antony Garotinho, omitiu-se. Por, muito possivelmente, classificar que uma faixa de água não tenha a devida importância política. Então, não é de admirar o estrondoso fracasso do PDBG (Programa de Despoluição da Baía de Guanabara) que já consumiu uma fortuna em milhões dólares. Quanto ao governo Federal, na época entregue a Fernando Henrique Cardoso, dispensa comentários. Destaque-se que outros acidentes geográficos, como a foz do Rio de São Francisco, a Baía de Todos os Santos e a Angra dos Reis, também descobertos na mesma primeira missão exploratória do litoral brasileiro, pilotada por Américo Vespúcio e iniciada em 1501, tiveram seus 500 anos ressaltados. Pobre Baía de Guanabara, não foi lembrada, em seus quinhentos anos... O paraíso tropical, que os índios chamavam Seio do Mar — tradução de Guanabara para o português —, hoje se vê reduzido a uma cloaca. Que Deus te abençoe e te proteja Seio do Mar, porque os homens, que habitam em volta de ti, pouco ou nada fazem! |
||