
Comemorar por comemorar? Por Webber Lopes
Vendo toda a movimentação gerada pela mídia e as três esferas de governo em relação aos 200 anos da mudança da corte portuguesa para o Rio de Janeiro — com até desfile da esquadra da Marinha de Guerra, em frente ao Forte Copacabana, em comemoração a abertura dos portos às nações amigas —, torna-se imperativo perguntar se é justificado celebrar a data. A exemplo do que ocorreu com os 500 anos da descoberta do Brasil (?) e o centenário da abolição da escravidão, ambos motivos de polêmicas e discussões. A resposta deve ser que todo fato de relevância histórica pode ser relembrado e repassado. Como já disseram antes: um país que não preserva o seu passado, não terá futuro. E não apenas organizar festejos como é de costume das autoridades deste país. Devemos admitir que a chegada da corte real foi fundamental para libertar o Brasil dos entraves que o limitava a posição de colônia de exploração. Pois sugavam todas as riquezas e acumulavam a população com impostos abusivos, o que levou à Conjuração Mineira. A transferência do governo português — apesar de absolutista e corrupto (características que até hoje marcam nossos políticos) — de Lisboa para o Rio de Janeiro, gerou o impulso que levaria a independência, em 1822, e estabeleceu a unidade, através da pessoa de Dom Pedro I, que impediu a desintegração territorial do país. Sem a vinda da família real, e a aceleração política e econômica que ela provocou, a independência poderia ser retardada em até um século (conforme as colônias lusitanas na África); o Brasil seria desmembrado em várias nações (como na América espanhola), e os países que resultariam da fragmentação, provavelmente teriam problemas econômicos semelhantes a Angola, Moçambique, Timor Leste... Deixando os exercícios de projeção histórica de lado, não podemos nos furtar de comentar que a vinda, ou melhor, a fuga de Dom João VI, juntamente com sua corte, para o Brasil, — levando com eles metade do dinheiro em circulação em Portugal e boa parte das riquezas do país — deveu-se a invasão da Península Ibérica pelas tropas de Napoleão Bonaparte; constituindo-se este, talvez, no maior ato de covardia da história da humanidade. Não se tratou de uma retirada estratégica, como, por exemplo, a de De Gaulle, na Segunda Guerra, que da Inglaterra comandou a resistência. O monarca abandonou seu povo à sanha do invasor, para se refugiar, com todo o seu séqüito, na segurança de sua rica colônia tropical. Sob o repúdio do povo, Dom João VI e sua corte, ao embarcarem no porto do Lisboa, foram vaiados e alvejados com paus, pedras, tomates e ovos podres. Pessoas desesperadas, que também desejavam fugir, tentando entrar nas embarcações, se jogaram e se afogaram no Tejo. A população entrou em pânico, tropas se recusaram a subir a bordo, outras desertaram, e os saques começaram por todo o país. Não é de admirar que Dom João VI seja lembrado como uma figura patética, tanto no Brasil quanto em Portugal. Além de fujão, também ficou marcado como glutão (sempre pronto para um lanche rápido, carregava nos bolsos coxas de galinhas) e corno, vítima do furor uterino de Dona Carlota Joaquina. Passada a ameaça napoleônica foi obrigado a regressar a Portugal, em 1821, sob a ameaça de perder o trono, onde teve o triste fim de ser assassinado por envenenamento, em 1826. Também é inegável que desde ao pisar em terra, Dom João VI fez muito pelo Brasil e que parece ter verdadeiramente aprendido a amar este país, onde se sentia feliz. Elevou a até então espoliada colônia a condição de Reino Unido, abriu o livre comércio, revogou a lei que proibia a instalação de indústrias e manufaturas, fundou instituições de ensino, o Jardim Botânico, a Praça de Comércio entre outras benfeitorias. E no Rio de Janeiro ele foi aclamado rei, em 1818, dois anos após a morte de sua mãe, Dona Maria I, a Louca. O que faz dele, sem dúvida e pelo menos, uma personagem bastante controvertida. Por isso, não é pura é simplesmente comemorando uma data histórica, como sempre fazem as autoridades, que se valorizará a história deste país. Muito menos tentando ocultar as mazelas de nossas personagens e fatos históricos. Como agora faz o prefeito César Maia, que para valorizar os festejos, torce a história para transformar Dom João VI em um grande estadista, chegando a criticar a atriz e cineasta Carla Camurati, pela imagem jocosa do monarca no filme Carlota Joaquina . Também foi risível, a atitude do prefeito ao misturar o Rei Momo com atores interpretando a família real, em um corso de carruagens pelas ruas, na abertura do carnaval. Além de “confundir alhos com bugalhos”, César Maia só irritou a população, atrapalhando ainda mais o já conturbado trânsito do Centro da cidade. A história do Brasil não deve servir para interesses turísticos ou de afirmações de governos. O fracasso do festejo dos 500 anos da chegada da esquadra de Pedro Álvares Cabral, ainda está vivo na lembrança, devido a setores da sociedade que questionaram se havia o que comemorar. A mesma pergunta deve ser, mais uma vez, feita agora. Começaremos a trilhar novos caminhos, tendo como base uma história passada a limpo com honestidade; ou continuaremos a mascarar o passado, com um glamour fictício, para vender pacotes turísticos e entreter o povo — na maioria ignorante de sua própria ancestralidade — com desfiles e fogos e artifícios? |
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