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Ante-projeto:
Da crítica ao fundamento à afirmação do experimento
Marcelo Diniz Martins
marceloebia@uol.com.br
Ciências da Literatura
Semiologia
28 de abril de 2000
UFRJ - Faculdade de Letras
Ante-projeto: Da crítica ao fundamento à afirmação do experimento.
1 - Apresentação
Tanto em sua teorização quanto em sua prática, tanto no plano filosófico quanto no das realizações artísticas, as obras de arte moderna parecem ilustrar o que se pode compreender como uma pragmática do campo epistemológico contemporâneo. Esse exercício discursivo, seja na produção reflexiva da teoria seja no resultado que se confirma nas obras, parece obedecer a certa metodologia comum a tão diferentes práticas, cujo primeiro passo afirmaria como sendo o da crítica ao fundamento. Esse princípio crítico e negativo é o que se pode conceber, por exemplo, nas considerações de Marcel Duchamp sobre o Dadaísmo do qual fez parte:
Dada fut la pointe extrême de la protestation contre l'aspect physique de la peinture. C'était une attitude métaphysique. Il était intimement et consciemment mêlé à la "literature". C'était une espèce de nihilisme pour lequel j'éprouve encore une grande sympathie. C'était un moyen de sortir d'un état d'esprit - d'éviter d'être influencié par son milieu immédiat, ou par le passé: de s'éloigner des clichés - de s'afranchir. La force de vacuité de Dada fut très salutaire. ( DUCHAMP.1994.172)
Essa espécie de niilismo ou essa negatividade específica, dirigida ao fundamento físico da pintura, que o próprio Duchamp, em outros momentos, nomeia como fundamento retiniano, investe as artes plásticas de uma atitude metafísica, aproximando-as da literatura, e encaminha justamente o que compreendo como crítica ao fundamento que alimenta tanto as preocupações da arte Dadaísta quanto de outras correntes pertencentes à linhagem construtivista da arte moderna. Se em seus textos e entrevistas Marcel Duchamp desenvolve este niilismo específico aos fundamentos retiniano, figurativo e do gosto, em suas obras constata-se a extensão dessa crítica ao suporte, pela substituição da tela pelo vidro por exemplo, ou mesmo ao próprio objeto com os seus ready-made. É a extensão dessa crítica ao fundamento que considero redimensionar os problemas da arte moderna em um plano que o próprio Duchamp denomina de metafísico e que gostaria de compreendê-lo como conceitual, uma vez que a atitude desse niilismo específico situa-se no campo dos valores e do estatuto que a tradição investe os elementos técnicos ou materiais da elaboração artística. Com essa crítica ao fundamento, a meu ver sistemática na teoria e nos objetos artísticos da modernidade, a arte moderna, compreendendo mesmo as manifestações literárias, exerce a pragmática possível de uma nova epistemologia que se constata em outros campos do saber, como o filosófico e ainda o científico.Não são poucas as manifestações do pensamento filosófico contemporâneo que se aproximam das reflexões artísticas no que diz respeito à expressão do que aqui denomino de crítica ao fundamento. As arqueologias do saber e da subjetividade de Michel Foucault, elaborando o que se poderia compreender como uma anti-epistemologia, elaboram a crítica ao fundamento clássico da Verdade, do Sujeito e da Representação, compreendendo boa parte da genealogia dessa crítica possibilitada pelo campo aberto pela arte, com freqüentes referências à Stéphane Mallarmé, Marcel Proust, James Joyce e Raymond Roussel entre outros. A obra de Michel Foucault apresenta-se como marcada pela atitude sistemática e pluralista do que compreendo como crítica ao fundamento. Os pontuais momentos em que se pode encontrar um princípio afirmativo em seu discurso são aqueles dirigidos à arte, de Magritte por exemplo, ou à literatura especificamente, em que o pensador pode vislumbrar a contraface do movimento crítico e a afirmação de uma dimensão do discurso que escapa ao jogo da Verdade, do Sujeito e da Representação.
De uma forma especificamente diferente, encontra-se na obra filosófica de Gilles Deleuze, ainda em freqüente aproximação com as manifestações artísticas, o movimento dessa crítica ao fundamento como um segundo movimento, necessário e conseqüente, de um primeiro que se poderia denominar como ontologia da diferença. Revitalizando as teses do empirismo inglês por exemplo, David Hume especificamente, Deleuze compreende o ceticismo e mesmo o niilismo específico do princípio crítico como correspondendo a uma atividade vital do pensamento no jogo da territorialização e da desterritorialização que mobiliza e promove a criação dos conceitos . O que em sua obra se compreende como reversão do platonismo expressa justamente essa atitude da crítica ao fundamento, no caso metafísico, do próprio pensamento, liberando-o para sua pragmática em outros campos do discurso que não apenas o filosófico, como o artístico, uma vez que o pensamento é concebido como o campo da experiência ou do experimento e da diferença.
Dentro de um projeto de crítica ao fundamento metafísico, situa-se ainda a obra filosófica de Jacques Derrida. Com a radicalização conceito de escritura, o pensamento filosófico de Derrida considera a arquitetura da metafísica ocidental dentro do jogo das hierarquizações derivadas dos fundamentos do Sujeito e da Verdade, subvertendo a subordinação da escrita à fala e desta à Verdade, compreendendo a escritura como essa dimensão da produção da Verdade e como apagamento de sua condição criativa. Também é freqüente na obra desse filósofo a referência aos problemas levantados pela literatura moderna, como Mallarmé, Joyce e Ezra Pound por exemplo. De novo identifica-se o movimento de crítica ao fundamento movido por um princípio ativo e, diria, positivo à própria condição concreta do pensamento como escritura .
Através desses poucos exemplos, incluindo entre eles a obra de Marcel Duchamp, considero que a atitude desse niilismo específico compreendida pelo termo crítica ao fundamento tem como contraface, por que não dizer, paradoxalmente, como fundamento, a concepção positiva do experimento. A crítica do fundamento, dessa forma, conduziria então a certa condição irredutível e inalienável do pensamento que radicalmente denomino de experimental. Ao meu ver, é dessa crítica de niilismo específico que as manifestações artísticas e filosóficas da modernidade mobilizam os conceitos e as técnicas de sua tradição para a configuração de um projeto experimental que compreende suas práticas marcadas, ousaria dizer, por um outro princípio de positividade que denomino como experimento. Dessa forma talvez se compreenda o caráter salutar e a força, os elementos positivos de que nos disse Duchamp, associados à vacuidade sistemática da experiência crítica da modernidade.
O movimento negativo da crítica ao fundamento configura-se como o desvio necessário para a afirmação da positividade do pensamento moderno no campo da filosofia e da arte. É da contraface desse niilismo que os modos de pensar modernos extraem a positividade que experimentam como discursos ativos que reiteram, repetem o indeterminado em que se lançam. Não à toa, no campo filosófico, a reflexão sobre a escritura e sobre o livro ganham a importância e os questionamentos das palavras de Foucault, de Deleuze e de Derrida. Não à toa, no campo mesmo das teorias da arte e literária, a escritura adquire muitas vezes a densidade suficiente para ressignificar seu próprio estatuto de teoria. O príncípio da crítica ao fundamento e o do experimento são, portanto, coextensivos, afirmando pela repetição, o campo epistemológico moderno marcado sobretudo pela diferença e pelo pluralismo.
No caso específico da literatura, importante considerar o desdobramento das pesquisas e dos experimentos derivados da atitude radical do concretismo. Se por uma lado essa vanguarda é responsável pela disseminação da teoria positiva do formalismo e do estruturalismo, a radicalização conceitual e criativa das produções concretistas, não se restringindo ao campo da própria produção poética, levam à desestabilização do estatuto tradicional de crítica e tradução por exemplo, ou mesmo do suporte material da poesia, com as artes gráficas, primeiramente, e, atualmente, com a informática. Os desdobramentos do pragmatismo da vanguarda concreta, associando sistematicamente a crítica ao fundamento e o experimentalismo, redimensionam a experiência poética no espaço cultural, além de darem à crítica ou à teoria literária e à tradução o valor ontológico de criação. Acredito que advém da experiência do concretismo e da revitalização da semiótica peirceana, pela qual a vanguarda é uma das grandes responsáveis, certa mudança radical do material de linguagem e dos elementos conceituais que perfazem a teoria da poesia, que merecem ainda o estudo mais aprofundado de suas conseqüências.
nota 1
Dadá foi a ponta extrema do protesto contra o aspecto físico da pintura. Foi uma atitude metafísica. Ele foi intimamente e conscientemente misturado com a "literatura". Foi uma espécie de niilismo pelo qual eu experimento ainda uma grande simpatia. Foi um meio de sair de um estado de espírito - de evitar de ser influenciado pelo seu meio imediato, ou pelo passado: de se distanciar dos clichês - de libertar. A força da vacuidade de Dadá foi muito
salutar.
2 - Hipótese e proposta de desenvolvimento
O processo que consiste na passagem da crítica ao fundamento à afirmação do experimento , considero, portanto, como o movimento inerente à pragmática contemporânea do pensamento, à luz do qual se pode vislumbrar, essa é minha hipótese, uma espécie de novo empirismo e, por que não dizer, de novo vitalismo de que esse mesmo pensamento investe a arte no universo cultural contemporâneo. Um novo empirismo, uma vez que se trata agora da empiria da linguagem e do sentido e não apenas da percepção; um novo vitalismo, uma vez que, se o movimento negativo da crítica pode evidenciar-se como primeiro, é só por aparência e necessidade da positividade experimental de um pensamento em tensão entre suas cristalizações do poder e do hábito e seu apelo pelos limites da significação onde se afirma sua difícil e sempre estranha liberdade.
3 - Objetivos
Como objetivo principal dessa pesquisa, pretendo viabilizar conceitual e analiticamente, a possibilidade de se compreender a arte como forma de conhecimento. Com esse intuito, minha hipótese consiste na formulação dos conceitos de crítica ao fundamento e de experimentalismo como fundamentais para o configuração do conhecimento no campo epistemológico contemporâneo. Para tanto, buscarei precisar os conceitos de crítica ao fundamento e experimentalismo no campo filosófico, epistemológico e artístico, como conceitos fulcrais para o que denomino como novo empirismo e novo vitalismo, precisando a história desses dois conceitos e sua possível configuração para a filosofia e epistemologia contemporânea.
No campo filosófico, buscarei situar a pesquisa na obra Michel Foucault, em suas arqueologias críticas, precisando os pontuais momentos em que a afirmação da positividade do pensamento se ilumina no campo artístico e literário; na obra de Jacques Derrida, enfocando o conceito de escritura como, ao mesmo tempo, crítico e afirmativo da metafísica e da diferença, considerando em sua obra o valor, ao mesmo tempo, desconstrutor e positivo conferido à manifestação literária da escritura; e na obra de Gilles Deleuze, precisando os modos da retomada do empirismo como crítica à ontologia metafísica e como forma de uma nova semiótica, precisando ainda o papel da arte e da literatura como afirmação do que considero como ontologia da diferença.
No campo artístico, pretendo ainda uma breve incursão pelos textos reflexivos de autores responsáveis pelos gestos radicais da arte moderna como o abstracionismo e a obra de Marcel Duchamp, visando precisar a expressão dos conceitos de crítica ao fundamento e experimentalismo em sua pragmática criativa.
Na literatura, especificamente, enfocarei a obra da tríade concretista, Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, buscando delinear os conceitos de crítica ao fundamento e experimentalismo com imanentes à prática da crítica, da tradução e da poética desses autores, compreendendo ainda o modo próprio da revitalização da semiótica peirceana, da qual esses autores são, em boa parte, responsáveis. No caso de sua obra poética, buscarei enfocar o que denomino como pesquisa fronteiriça, em que os recursos tradicionais do universo poético desterritorializam-se em outros campos de manifestações artísticas, como as artes gráficas e a informática, a tradução e o ensaio.
Buscarei ainda precisar os conceitos de crítica ao fundamento e experimentalismo, na discussão contemporânea da epistemologia, em autores que reconsideram a importância do empirismo e do vitalismo, como Gaston Bachelard, Henri Bergson e Georges Canguilhem, visando à formulação do que denomino como novo empirismo e novo vitalismo.
Dessa forma, julgo ser possível desenvolver a tese da arte como forma de conhecimento dentro do campo epistemológico contemporâneo, considerando os conceitos de arte e de conhecimento como correlatos ao processo de crítica ao fundamento e experimentalismo.
4 - Metodologia
A metodologia desse trabalho compreenderá a mesma que foi a de minha dissertação de mestrado. De caráter ensaístico, buscarei estabelecer ligações de diálogos entre o plano teórico e filosófico e o artístico. Não é de minha intenção buscar uma aplicabilidade dos conceitos filosóficos à interpretação das obras. Meu objetivo é o de criar um plano de reflexão epistemológica em que a filosofia, a epistemologia e a arte situem-se como elementos de formação.
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